quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Altruism 4

Quase seis, quase hora de ir embora desse escritório que fede a gente velha... Eu sou nova demais pra isso aqui. Putz, olha só o jeito que o cara da frente finaliza os relatórios diários... Quase não enxerga a tela do computador e esse povo da admissão que só faz merda... Nunca entendi o motivo pelo qual eles contratam esses caras de cinquenta anos em vez de pessoas bonitas, jovens e decentes de vinte. Acho que é experiência, tempo de trabalho... sei lá. Mas é um grande erro, a meu ver.
Hoje de manhã acordei puta de raiva, mas com uma chuva deliciosa batendo na janela. Coloquei um Supertramp pra tocar e vi se ainda tinha alguma erv... opa. Pode falar disso? Ah, pode? Ah tá...hihih. sou meio tímida, sabe? Mas enfim... Vi se ainda tinha alguma erva e seda, e aí fui bolar um pra alegrar meu dia...sabe? Pois é. Quem diria, hein? Logo eu, com esse corpinho jovem e esses olhos claros encantadores... Difícil de acreditar, mas eu gosto. Gosto muito.
Felizmente tinha alguma erva. Tinha seda... Tinha Supertramp no som e ainda faltavam confortáveis duas horas até que eu precisasse me dirigir até um prédio sujo no meio da cidade pra trabalhar. Trabalhar. Acho que esse é meu maior problema ultimamente. Posso acender um cigarro? Ah, tudo bem.
Na hora do almoço... Vou até o Burger King mais próximo e... olha... aquele cara que contrataram também vai. Acho que ele nota a minha presença, mas prefere ficar com aquele fone de ouvido ridículo, azul, vê se pode, no ouvido. É uma pequena caminhada de... dez minutos, creio eu. Vale a pena, porque ele apenas pede qualquer sanduíche, senta ali e fica olhando pro nada, pensando na vida como se tivesse acabado de acordar. Acho que ele fuma um também... Mas seria sonhar demais. Mas será? Acho que vou tentar algum dia.
A garagem desse prédio é o lugar mais ermo, sombrio, escuro, desabitado e sem vida que eu conheço. Tenho até certo medo de andar por lá quando acaba o expediente, então eu prefiro tomar o metrô, que apesar de ser a meia hora de caminhada, é mais seguro... eu vejo mais gente, sabe? Eu vejo o movimento frenético da cidade, vejo as coisas passando... É quase poético. Melhor seria se todos os dias fossem recheados de chuva como esse, que aí eu simplesmente não saberia como reagir na hora de ir embora. Mágico.
Minha playlist diária tá arrumada... E então é hora de contatar alguns clientes e negociar produtos que eu nunca vi, nem comi, só ouço falar. (risada) Viu? Zeca Pagodinho... que inclusive também tá na minha playlist, só que acho que duas ou três músicas, só.
Ah, tem uma área pra fumantes... Tem uma área pra fumantes no andar de cima. Acho que vou lá, vai que alguém tá lá na sala do café... E olha que surpresa: Esse cara tem cigarros, e provavelmente... aliás, acho que não. Tem cara de gente politicamente correta... que não dá uma bela de uma trepada a mais de um ano. Olha só a cara do infeliz, triste e pensativo.... como eu gostaria de estar. A solidão é foda, vai entender... Eu vivo sozinha numa kit ali na parte da cidade onde as mamães não deixam seus filhinhos irem... pois é. Complicado. E se esse cara for um gênio em potencial, só esperando pra mandar todos os prédios abaixo? Nossa... O jeito que ele coloca o cigarro na boca é esquisito... segura o cigarro como quem segura uma caneta. Bizarro. Mesmo. Eu até pediria um cigarro pra ele, mas ele é desses caras chatos que não dividem cigarros com ninguém... Será que se eu convidá-lo pra apreciar diferentes tipos de tabaco ele aceitaria? Acho que não, tô viajando demais... Acho que ele notou que eu passo horas em frente à cafeteira, mas acho que ele não vai perceber se eu demorar um pouco mais. E se ele percebeu e tá me chamando de maluca? Quer saber? Não vou pedir cigarro nenhum, vou embora.
E no meio desse corredor com poucas pessoas, vou pensando na hora de chegar em casa, na hora de ver um filme qualquer e chorar sozinha porque eu realmente estou sozinha, atolada de dívidas e com pouca vodka na geladeira... Aliás, acho que na minha geladeira só tem vodka e manteiga. Puta que pariu, como meu dinheiro some. Ah, quer saber? Vou voltar e pedir um cigarro.

- Tem um cigarro pra me arrumar?
- Sim.
- Obrigada. Posso?

Acho que ele ficou puto com esse lance do isqueiro... Mas vai saber, né?

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