segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Altruism 1

Simplesmente ela entra pela porta, arruma os cabelos minuciosamente penteados novamente, levanta os olhos e abre um sorriso. "Bom dia", a voz reverbera pelas paredes, pelo escritório, e então ela pendura as coisas no local de trabalho, aquele mesmo casaco azul que usava todas as vezes que o mundo resolvia devolver nossas lágrimas com longas temporadas de chuva... E então ela começa a arrumar as coisas na mesa do escritório... Começando pela foto do casal. Nunca imaginei que poderia existir um casal na vida dela... Talvez amigos? Tios? Parentes? A neve no fundo da foto não me é reveladora... Nunca perguntei quem são os dois na foto, e acho que nunca perguntarei. Hoje, incrivelmente ela demorou um pouco mais para ligar o computador, checar aquelas correspondências que miraculosamente chegam até a mesa dela... Olhou para fora durante uns instantes e tornou a olhar para as correspondências. Está um lindo dia hoje, acho que eu devo me mover até a cozinha, só pra passar pela mesa dela e dizer um "olá" meio perdido, daqueles que tem todas as intenções do mundo, mesmo se passando por um simples "olá". Acho que ela vai perceber, mas não ligo.
Me levanto vagarosamente... e por algum motivo que desconheço, torno a me sentar na mesma cadeira de alguns segundos atrás, e meus olhos movem-se afim de devorar o corpo que está dentro daquele vestidinho azul... E então ela se senta, checa a linha de telefone e começa alguma coisa no computador... Nunca soube exatamente o que ela checa com tanta frequência, mas eu faria de tudo para ter acesso ao mesmo conteúdo, só pra comentar qualquer coisa trivial durante as idas à sala do café... Simples. Eu diria que é até simples, seguro, direto e sem segundas intenções... Mas eu posso enviar um e-mail. Na verdade eu sempre pude, mas acho que nunca o fiz justamente por medo de não saber o que falar. Eu tenho medo, eu admito. Não sei como lidar com mulheres, não sei como lidar com o contato com o sexo feminino, mas eu tento e tento com o maior empenho que se pode ver em alguém... Mentira. Eu não faço esse tipo de coisa, eu sempre fui um puta fracassado que não sabe lidar com mulheres. Preciso trabalhar.
Na hora do almoço ela simplesmente levanta-se e sai. Durante a caminhada até a porta principal, me olha com um olhar de piedade, ou de curiosidade, admiração... Não sei. Ela me olha e pergunta se eu quero almoçar em algum lugar, e eu simplesmente respondo que não, esperando que ela me convide novamente para um almoço ou para qualquer coisa que for, em data diferente, desde que estejamos a sós e desde que ninguém desse maldito escritório nos perturbe por horas e horas a fio... E aí eu lembro que meu almoço dura apenas vinte minutos, e que eu almoço no mesmo Burger King de todos os dias.
- Um Whopper, por favor.
- Qual, senhor?
- Qualquer um.

E o meu almoço de cada dia torna-se cada vez mais empolgante. Ainda na mesa do almoço, pego-me pensando nos poucos olhares em que ela me lança, e os vários olhares que eu direciono àquele corpo branco. Branco, apenas. Não sei descrevê-la com total precisão, mas juro que tento assim que eu tiver uma melhor oportunidade para tal... Aqueles olhos claros e as pernas não tão grossas e não tão finas... Espero que ela sempre use aquele mesmo vestido azul que vem usando de uns dias pra cá... Eles são simplesmente demais.
A tarde cai e um silêncio aterrador vaga pelos corredores e salas desse ambiente. Ela continua ali, perdida talvez em seus pensamentos tão aleatoriamente organizados. Talvez esse seja o motivo pelo qual ela mantém todas as coisas ridiculamente organizadas na mesa, e deve ser por isso que nenhum desses caras nunca tentou. Digo... Como me aproximar de alguém que pronuncia poucas palavras durante o dia? Acho que ela nada nos oferece além desses olhares perdidos de vez em quando e dessas pernas que desfilam e atraem os olhares todas as vezes que caminha até a foto-copiadora. Eu queria navegar por entre aquele par de coxas... Mas vai demorar muito, muito tempo. Ouso dizer que tal fato nunca, nunca acontecerá...

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