"E como num dia chuvoso com raios de sol, o homem estava ali, parado, incrédulo com o telefone na mão esquerda e aquele cigarro na mão direita. Esperava porque esperava encontrá-la, nem que fosse pra trocar um mero olhar e depois ir embora por aí, como se nada tivesse acontecido.
- Estou aqui. Estou te esperando aqui. Naquele lugar.
Do outro lado da linha ela sorria e chorava. Os cabelos vermelhos se perdiam no vento, que se perdia no rosto dele, que se perdia no passar dos minutos. Implorando fortemente para que ela não desligasse o telefone, e ela chorando o arrependimento antes mesmo do encontro virar realidade. Trocaram algumas palavras vagas, e do outro lado ela ouvia o coração aflito dele saltando de dentro do peito, enquanto o suor escorria pelo rosto e as palavras pela boca. - Eu só quero te ver. - Ele dizia.
E devo confessar que o encontro não aconteceu.
- estou exatamente aqui, meu rapaz. - E ela se perdia num misto de sorriso e soluço, sabendo que aquele sonho não aconteceria.
- Estou na frente da praia, estou olhando pro mar, estou esperando no lugar que você escolheu.
A ligação cai.
E como eu já vos alertei, essa não é uma história de amor. Conforme ela chegava perto do local, ele, aqui do outro lado, sentia o cheiro dela. Sentia através do vento aquele aroma adocicado, que em muitas outras ocasiões ele havia sentido. Algumas gotas caíram do céu, e o vento cortava o ar formando uma sinfonia que ele já ouviu, mas fez questão de esquecer.
O telefone toca de novo.
- eu só não queria te entristecer. Mas cheguei. Tô aqui.
E ele chorou pela segunda vez. Não pelo arrependimento, não pela saudade, não pelo amor, mas pela dor. A dor de estar no mesmo espaço que ela, e não poder vê-la.
Acontece o tempo todo por aí, devo comentar.
Há quem diga que fora daqui existam vários outros planos, e provavelmente foi mais ou menos isso que aconteceu. O rapaz não deixou de acreditar, não deixou de ouvi-la, mas a dor foi tal que, a partir daquele dia, ele nunca mais proferiu palavra alguma que se referisse a ela. Esqueceu os cabelos e os olhos vermelhos, esqueceu o celular na praia. 'Preciso acordar. Preciso parar com isso' como quem se convence de um estado de ilusão maior que a realidade. Mas a essa altura, não vou questionar o que é realidade e o que não é, até porque não nos importa mais.
Fiquei triste pelo rapaz, mas nada pude fazer na ocasião. Porém devo confessar que ela era uma ótima mulher. Foi uma pena"
Me perguntaram certa vez por que eu apaguei esse capítulo inteiro da Opera.
Apaguei porque não tem mais nada a ver. Porque eu quis.
quinta-feira, 14 de março de 2013
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