sexta-feira, 15 de março de 2013

Pawn Shop

- Olha, isso aqui não tem valor nenhum pra mim.
- Mas eu preciso do dinheiro, moço. Preciso muito.
- Da próxima vez, traga algo de valor.

Aquele silêncio hostil então se faz bastante presente naquela salinha pequena, com cheiro de cigarro e remédio pra dormir. Mais uma vez uma moça decepcionada sai daquela sala carregando uma tralha qualquer que pretendia trocar por dinheiro, ou por dignidade, nunca se sabe ao certo das intenções das pessoas nessas situações. Mas poderia ser eu, ou poderia ser você, dependendo do dia.

E aí, àquela hora do dia chega o cara menos bem-vindo de todos. Uma aparência jovem, porém bastante desgastada pelo tempo, ou pelas horas sem dormir, pelo excesso de cigarro e pensamentos obsessivos numa cabeça perturbada. Talvez fosse um gênio dessa nova geração, talvez fosse só mais um desses malucos que vendem a alma por 20 mangos e compram uma cadeira na sessão das 18:00 pra um filme ridículo desses.

Ele entra e não diz nada.
Do lado de cá, o senhor olha dos pés à cabeça o ser que ali se apresentava, prestes a recusar toda e qualquer oferta que ele fizesse, só porque não foi muito com a cara do sujeito, ou até porque ele não tem nada pra oferecer mesmo.
- Bom dia.
- Bom dia. - o rapaz responde com a voz meio trêmula, meio muda.
- E aí?
O rapaz tira do bolso um frasco contendo um líquido transparente. Um frasco pequeno, desses que em qualquer farmácia se arruma facilmente. O frasco pela metade, os olhos esbugalhados dele e aquele comportamento de quem tá sem dormir a dias, quase se perdendo na própria mente. E não diz nada, esperando qualquer reação do senhor atrás da mesa.

- Que é isso?
- Alguns sonhos que eu peguei.
- Sonhos?
- Sim.

Silêncio.

E dadas as circunstâncias, a hora, e a cara do louco que oferece sonhos em troca de dinheiro, talvez fosse verdade. Talvez não.

- Quer quanto nisso?
- Quero trocar.
- Menos mal. E quer o quê?
- Quero aquele revólver ali.
-leva.

"menos mal. Eu não pagaria mesmo por isso."
- Bastante cuidado com esses sonhos, senhor. Até mais.

E o rapaz se dirigiu até a porta, e um barulho estrondoso ecoou pelo corredor. A cabeça já não existia mais, e as paredes brancas tomaram tonalidade vermelho-sangue.

Depois do susto, ele olha pro meio frasco de sonhos em cima da mesa, e faz dois desejos.

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