Desde cedo, eu notava, era um menino bastante excêntrico, mas desse tipo de excentricidade que não se acha facilmente por aí nessas novas gerações que se passam. Lembro-me bem dos olhos quase fechados em plena luz do dia, quando eu e todas as outras crianças nos divertíamos no pátio da escola e ele ficava ali: apático, apenas observando todos ao redor com aquela tão pouca idade. Eu não entendia, mas já sentia que algo estupendo poderia acontecer. Deixei de lado, primeiro erro.
E não mudou tanto no tempo em que completamos mais idade e experiência: Ele continuava ali, me lançando leves sorrisos de cordialidade e eu ali, me importando pouco com as confissões minimalistas de afeto que ele me lançava uma, duas vezes por semana no máximo... Segundo erro.
E agora, que faço eu? Sentada na cadeira da varanda, observando o vazio que foi deixado na memória por todos aqueles anos que eu poderia ter dito qualquer coisa que fosse, qualquer correspondência mínima de carinho para que ele lançasse toda aquela sensibilidade diretamente no meu peito, diretamente nos meus ouvidos. Ah, se o arrependimento matasse... acho que eu teria morrido aos 18 anos, naquela minha festa de aniversário em que passei a esperar de horas a dias, até que ele chegasse e me dissesse aquele "oi" tímido como sempre fazia todos os dias no tempo de colegial... Teria sido um belo presente, gerando belas oportunidades que eu provavelmente teria abraçado como se fossem as últimas de minha vida... Terceiro erro.
Mas creio que também tenha sido um erro meu, ora. Tão jovem, não tão bonita, mas com certo carisma, eu devia ter dito qualquer coisa, qualquer coisa mesmo. Até um "eu te amo" desesperado poderia ter surtido qualquer efeito, mas não. Tolice, idiotice, infantilidade, talvez.
Mais dolorosa das lições que eu poderia ter aprendido, logo essa que ele me passou através daquelas vibrações sonoras, vibrações que me arrancaram as mais profundas lágrimas de felicidade, arrependimento e mais um misto de sentimentos perdidos que ficaram apenas no meu mais profundo interior. Por que, meu Deus? Por que?
E quando ele me falava com aquelas palavras selecionadas que "você é minha, mas não me pertence..." Eu deveria ter valorizado. Mas e agora? E agora que ele se foi, que a magia deixou saudades, que a música acabou e tudo que me resta é o silêncio, algumas fitas gravadas e esse sentimento brutal de arrependimento? Eu mereço. Talvez seja essa a grande história que não aconteceu, talvez seja ele a grande utopia de um amor eterno, as tardes perdidas... e tudo isso que engloba um pequeno romance urbano. Talvez eu não seja digna de ouvir as canções, de ler os manuscritos, de pertencer à uma vida que não existe mais na minha vida.
Talvez eu não seja digna de participar da sensibilidade de um artista. Talvez eu mereça o silêncio por ele deixado. Talvez essa lata de cerveja seja tudo que me resta nessa cidade cinza.
domingo, 9 de setembro de 2012
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