quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Violetas velhas sem um colibri.

Mais um almoço de família em casa, e mais uma vez aquelas velhas pessoas do trabalho dos pais do garoto vinham e serviam-lhe com palavras e admiração. "Parabéns", "Continue assim" e mais um emaranhado de palavras soltas confortavam o ego do rapaz novo, de olhos vívidos e uma cabeça que enfervecia com ideias absurdas e planos impossíveis. Era a juventude que saía pelos poros, e era um novo começo nessa vida cheia de começos e finais, mas não para ele. No meio de toda aquela alegria, do canto de todos os presentes e daquela mulher que lançava-lhe um olhar do outro lado da cozinha, enquanto abria o vinho e colocava-o lentamente na taça, meio que tentando comunicação com o rapaz.
Os olhos castanhos, o vermelho do batom que desenhava suavemente os lábios não muito desgastados da mulher, um corpo que o rapaz jamais vira em outras meninas da mesma idade por aí. Talvez fosse apenas um desejo passageiro, talvez fosse algo forte, mas não tão forte quanto a rigidez que ele escondia dentro das calças enquanto vislumbrava os lábios tocando a taça, a taça derramando o líquido na boca úmida da mulher. Ela dava mais um gole, olhava para o líquido novamente e ficava ali sozinha saboreando o líquido enquanto todos os outros aproveitavam a festa de maneira pomposa. Estranhamente pomposa.
A noite caía, as pessoas caíam, ela ainda estava lá. O rapaz olhava para o corpo não tão perfeito, mas perfeitamente palpável para uma mulher de... quase cinquenta anos. Os cabelos loiros, com alguns pequenos fios brancos, convidavam-no a afagá-los, bagunçá-los e sentir a textura sedosa enquanto os dois se aventuravam em si. Mas era só um desejo que, a partir dali poderia se esvair com a mesma facilidade que folhas secas esvoaçam com leves brisas no verão.
E então ele subiu para o quarto, para deitar-se na cama e ouvir velhas músicas, pensar um pouco na nova etapa da vida, nos colegas que faria na nova faculdade, nas meninas, nas bebedeiras, nas névoas de fumaça que seriam confeccionadas dentro daquelas quatro paredes do quarto. Ele ouve os passos lentos de alguém e olha para a fresta da porta. Uma sombra impede que a luz do corredor entre no quarto escuro, e agora ele não pode ver mais nada.
Um cheiro familiar de álcool invade as narinas do rapaz, que olha rapidamente e reconhece os olhos fundos da mulher. Os mesmos cabelos loiros, os lábios úmidos e o batom levemente borrado na boca davam uma sensação de bem estar ao rapaz. Ela sorriu, não disse nada e fechou a porta atrás de si.
O vestido não estava firme no corpo. Batimentos cardíacos aceleravam, os olhos dela encontravam os olhos dele, ela já não falava mais palavras certas, nem palavras erradas, nem conseguia construir uma frase completa, mas ela sabia exatamente aonde estava a braguilha da calça dele. Olhou nos olhos enquanto descia vagarosamente o zíper da calça e colocou um dedo na frente dos lábios, acenando para que o rapaz fizesse silêncio.
A aliança na mão esquerda, mesma mão que a mulher usava para acariciar levemente o membro semi-rijo que se escondia dentro das calças dele. Ele olhava os olhos apreensivos dela, a língua passando por cima do batom, dos lábios convidativos daquela mulher ajoelhada na beira da cama e sem muita consciência dos atos. O telefone dela começa a vibrar no tapete, ela parece nem dar ouvidos e continua com aquele jogo.
E subitamente ele se lembrou de quem realmente era aquela mulher. As mesmas mãos que agora proporcionavam prazer, foram aquelas que ensinaram as primeiras letras, os primeiros números, os primeiros passos. Estranhamente ele entendeu o que eram aqueles olhares no meio das aulas, os suspiros, as decepções quando ele não obtinha resultados satisfatórios. Aquela mulher estava viva a quase cinquenta anos, e ele tinha apenas dezessete. Mas, apesar da ironia e de todo o peso na consciência, ele preferiu entregar-se ao beijo que ela oferecia. Passaram alguns minutos ali, se beijando, o batom desenhando as curvas no rosto do rapaz, as mãos dentro da calça dele, alguns gemidos e o gosto do vinho presente no beijo dos dois.

0 comentários:

Postar um comentário